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DANÇA, SUOR E TRADIÇÃO: COMUNIDADE QUILOMBOLA DOS SOUSA EM UMA LUTA PERMANENTE

Posted by Nóis de Teatro On 07:51 No comments


Por: Henrique Gonzaga 

Começou a imersão em comunidades quilombolas para a pesquisa de montagem do novo espetáculo do Nóis de Teatro, com o projeto “TODO CAMBURÃO TEM UM POUCO DE NAVIO NEGREIRO”, vencedor do Prêmio Arte Negra, da Funarte. Esse breve relato vem mostrar um pouco do que foi a intensa visita a Comunidade Quilombola dos Sousa, no município de Porteiras, no Ceará. E nesta data em que se comemora a abolição da escravatura no Ceará, esse relato reflete do que ainda, nós negros, temos que nos libertar.

A viagem foi cansativa, mas ninguém disse que seria fácil. Foram oito horas de ônibus e mais um “bucado de ladeiras de moto”, mas tudo isso não era nada comparado ao tamanho da nossa ansiedade por esse momento. Ao chegarmos ao Sítio Vassourinha fomos recebidos por um dos sorrisos mais bonitos que já vi, o da senhora Maria de Tiê, presidente da associação de quilombolas do município, que nos recebeu com um abraço forte, abraço de “sejam muito bem vindos.” Esse abraço nos abriu os caminhos do quilombo que começamos a desbravar logo pela manhã.

Ao chegarmos, nos encaminhamos para a casa que ia nos hospedar, a casa de Madrinha Lia ou Cumade Leuzinha, ou melhor ainda a “ Rainha do Quilombo” como assim passamos a chamar a pessoa que conquista todos com sua alegria. Eu e as atrizes do Nóis de Teatro, Amanda Freire e Dorotéia Ferreira, juntos com Cumade Leuzinha, Dona Maria de Tiê e o Senhor João Manuel percorremos quase o quilombo todo, e olhe que é grande, convocamos os quilombolas para uma grande conversa no dia seguinte.  Cada casa um sorriso maior, uma merenda melhor e uma história melhor pra ser ouvida. Histórias nem sempre alegres, mas contadas com um sorriso largo no rosto de quem já passou por muita dificuldade e ainda passa, mas ainda tem muita força pra lutar.
Ouvimos de tudo, histórias dos antepassados do senhor João Manuel, que com mais de oitenta anos tem muita força e alegria para nos acompanhar nas visitas aos outros quilombolas e a visão dos jovens do quilombo.


O domingo (23.03) estava sendo esperado por toda a comunidade. De manhã cedo bandeirinhas estavam enfeitando o terreiro, as panelas já estavam no fogo e as risadas e histórias preenchiam a casa de Cumade Leuzinha, que acolhia cada pessoa que chegava com muita alegria. Toda aquela movimentação na casa me trouxe a sensação de uma grande família que se reuni no domingo pra almoçar, mas não era só sensação ali é uma grande família que seja Sousa ou Araújo, eles estão juntos comemorando a vida.

O restante do Nóis de Teatro chegou e o tambor já preenchia o quilombo, era o coco que estava chegando, a dança do coco é uma das maiores manifestações culturais do Quilombo dos Sousa. As mulheres já estavam enfeitadas, maquiadas, com saias enormes só esperando o tocador pra começar a festa e assim aconteceu, o tocador chegou e o coco começou.
Era muita alegria, parecia que não existia problemas naquela comunidade, era só sorriso e muito fôlego e assim dançamos muito, mas não tanto quanto eles. Podíamos ver em cada um que dançava o coco, o orgulho de estar mostrando aquela manifestação pra gente e quanto mais a poeira subia, mais as sandálias se arrastavam, os cantos aumentavam e a alegria chegava em “Nóis” como um choque de felicidade.
O coco traz a alegria pra comunidade, mas não é só de alegria que vivem aquelas pessoas. As dificuldades são muitas, algumas iguais as que passamos aqui na cidade e outras bem particulares. Andando pelo quilombo soubemos que existem quilombolas que não aceitam e renegam a sua comunidade, a sua cor e a sua história, isso tudo pelo preconceito. Assim, também, como tem os que não nasceram no quilombo, mas hoje são quilombolas de coração e vivem na comunidade.

Os problemas não acabam no preconceito, assim como na periferia, muitos quilombolas não tem emprego e vivem com pequenos roçados e benefícios do governo, e isso os impede de ter uma educação melhor para os seus filhos e uma melhor condição de vida.
Os problemas da comunidade dos Sousa refletem uma questão que vem desde os tempos da escravidão. No dia 25 de março 1884, a cidade de Redenção, antigamente chamada de Acarape, foi a primeira cidade a abolir a escravatura, mas com essa abolição vieram outros problemas que continuaram machucando o negro no decorrer da história, talvez uma dor maior do que a dos açoites, a dor da fome, da falta de moradia, da falta de educação e de oportunidades. Essa dor ainda lateja nos quilombolas e nas periferias, mas do mesmo jeito que o açoite continua batendo o povo continua lutando por dias melhores e a luta também é uma das tradições desse povo.

Em meio a toda problemática a dança do coco alivia um pouco a dor daqueles quilombolas, o que também ajuda muito é a Umbanda, religião praticada por boa parte dos quilombolas, que também é alvo de preconceito por parte de outros quilombolas.

Conhecemos o terreiro do senhor Ricardo, que pra mim foi a parte mais forte, pois há muito tempo não ia a um terreiro de Umbanda. O terreiro tem uma simplicidade que o torna especialmente lindo e mais do que isso, aquele terreiro é também um símbolo de resistência da comunidade, onde a religiosidade e os rituais dos seus antepassados são mantidos com a mesma fé e beleza de antigamente. O senhor Ricardo fala do seu terreiro com muito orgulho, lembra que é um dos poucos que existem na comunidade, justamente pelo preconceito que existe nela, mas isso em nada abala o seu trabalho que ele diz ser uma missão e que desempenha com toda a alegria.


O fim de semana foi muito mais do que as palavras podem relatar, a alegria de Cumade Leuzinha, a fé do senhor Ricardo, as histórias do Senhor João Manuel, a comida nos oferecida pela Dona Socorro e o Senhor Nó, a alegria das crianças Pedro, Wiliam, Radja e muitas outras. A alegria e simpatia da cantora do coco Dona Maria de Tiê e toda a sua família. Saímos de lá com o coração apertado e com muitos pedidos de volta e com certeza voltaremos, pois agora somos mais alguns quilombolas de coração.

Agradecemos a todos que fizeram dessa pesquisa uma realidade na Comunidade Quilombola dos Sousa, ao senhor Raimundo Inácio que nos ajudou na articulação, a senhora Zilma Minel que nos acolheu muito bem e a todos, mas todos mesmo, que não deu pra citar no texto, mas que fizeram muito por “Nóis” e por nossa pesquisa. Em dezembro voltaremos e até lá, como dizia o Pai José Pereira, muito AXÉ e que Deus ilumine a nossa caminhada.     

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