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CONCEPÇÃO DIALÉTICA

Posted by Nóis de Teatro On 09:32 No comments




Por Altemar Di Monteiro

 Sem forma revolucionária não haveria arte revolucionária, afirmava Maiakóvski. A partir dessa ideia, o trabalho do Nóis de Teatro tem se configurado como uma investigação estética onde passamos a observar a rua e o espaço geográfico/arquitetônico das favelas como locais de encenação, espaços poéticos, alimentados pelo “suor humano da argamassa do seu calçamento”. Nossa produção estética busca mostrar, de forma poética, as ruas e os sujeitos oprimidos dessa cidade, revelando a urbes que não é contada nos folhetins de propagandas turísticas, contribuindo para a desconstrução de preconceitos e amarras em relação ao que vem das “favelas”, do local de onde atuamos. O atual repertório do grupo, composto por “Quase Nada”, “A Granja”, “Sertão.doc” e “Todo Camburão Tem Um Pouco de Navio Negreiro” são exemplo disso, trazendo fortes reflexões sobre violência urbana, conflito de classes na cidade e no campo, intolerância e preconceito, tendo como pano de fundo as experiências do grupo nas periferias.

Como produzir uma arte desvinculada de uma realidade de massacre cultural e violência onde se está inserido? A pesquisa poética do Nóis cada vez mais se fortalece numa noção dialética, no desejo da produção de uma arte desvinculada de um projeto estético dominante, questionando-o e refletindo sobre seus ditames formais. É a busca por contradições, o louvor à crise, o “incêndio da obra”, o despedaçamento, a sublime violência do verdadeiro. Sem pregar “a verdade”, na difícil tentativa de fugir do discurso panfletário, mas apresentando as contradições das verdades, defendemos um teatro que coloca as informações em crise, dada a quase impossibilidade de desconectá-la dos contextos históricos e culturais em que se inserem.

Todo Camburão Tem Um Pouco de Navio Negreiro surge nesse contexto de aprofundamento da pesquisa do grupo. Vencedor do Prêmio FUNARTE de Arte Negra, o Nóis passou por um ano visitando comunidades quilombolas, terreiros de umbanda e candomblé, dialogando com movimentos sociais e refletindo sobre os atuais dados que criminalizam e dizimam a juventude negra nas periferias. O texto, escrito num processo de Dramaturgismo por Altemar Di Monteiro, sugere uma imersão dialética na vida de um personagem complexo, cheio de contradições e difícil de se chegar a um julgamento claro. Natanael, no primeiro ato, é apresentado como um oprimido, perseguido, com uma infância marcada pelo preconceito e intolerância, sem acesso às necessidades básicas. No segundo ato, sem perspectivas, Natanael entra pra polícia militar, onde é corrompido e transformado num homem truculento, chegando a matar a queima roupa um outro jovem numa manifestação. No terceiro ato o público é convocado a discutir a situação do nosso personagem. Num tribunal aberto, sob os argumentos de um advogado de defesa e um de acusação a plateia tem a incumbência de decidir o seu futuro.

A montagem passa por um crivo de tragédia épica, onde os atores narradores possuem uma função muito importante, guiando o olhar do espectador rumo a um distanciamento, possibilitando a reflexão sobre os fatos apresentados. Não tínhamos como fugir do grande referencial de matriz negra das periferias, então, o funk, o hip hop e a capoeira embalam as canções e propostas de cenas, que são costuradas pelo fio condutor de referenciais da umbanda e do candomblé. O espetáculo possui 07 cenas, um prologo e um epílogo, onde em cada cena, são utilizadas múltiplas referências da mitologia dos orixás africanos. A história de Natanael é inspirada em vários mitos dos Orixás, que surgem ao olhar de um espectador especializado em grande referência, mas que para um espectador leigo revela-se em beleza e força. A tragédia é colocada em cena como um recurso de estetização do discurso, apresentando múltiplas alegorias para representar realidades. Desde o nascimento do menino Natanael numa orgia que pede “agô” a Exu, até a sua redenção no encontro com Oxalá, o espetáculo guia-se em torno do referencial de matriz africana, militando, inclusive, contra a intolerância religiosa, mostrando a beleza dos cultos afro.

Como não cair na imagem da comunidade de periferia estereotipada pela grande mídia sem entender a sua singularidade poética, códigos de conduta e sociabilidade, reflexo de um universo cultural amplo? Falar de arte política, dentro das periferias da cidade, é vincular tal projeto artístico à sua própria conjuntura, e a ideia de dialética apresentasse para Nóis, como a construção de diálogos e ambiguidades, o espaço de transição entre polos, a dúvida propulsora do debate. É a incerteza do que pode ser, do que será e do que é, mas é também a certeza de que o que está posto é sim mutável. A partir daí, numa via negativa, buscamos a produção do confronto, da tensão, do incômodo necessário para a transgressão e mobilização da transformação, rumo ao tão sonhado despertar.

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