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QUASE NADA EM DEBATE

Posted by Nóis de Teatro On 19:43 No comments

Por Nayana Santos




Nossos debates após o espetáculo Quase Nada, desde as primeiras apresentações, vem rendendo reflexões bem interessantes no sentido do questionamento que o elenco traz para o espectador. Geralmente começamos com duvidas simples do público que assistiu ao espetáculo, como saber o que motivou o grupo a encenar um texto já montado, o que nos levou a fazer um espetáculo em sala fechada e coisas nesse sentido, já que de início as dúvidas sobre o funcionamento do grupo e qual a vertente que se segue durante esses 14 anos são esclarecidas. Mas especialmente nesses últimos debates quando o público lança suas observações e perguntas para o elenco, às mesmas acabam voltando para quem perguntou, pois são reflexões que as pessoas que assistiram podem responder e resolver. Diante dessa situação percebemos o quanto é necessário esses espaços de diálogo e debate. Pessoas que residem na mesma localidade, região e até mesmo bairro, juntas num momento que podem conversar e expor todos os pensamentos e questões que cada um carrega em sua vida particular. Um momento de partilha, onde se mostra as ideias prontas e que expostas trazem mais questões para o que já estava afinado e às vezes conclui o que ainda estava em processo de amadurecimento.
A questão da opressão e o que ela carrega junto no espetáculo, sem dúvidas são os pontos de partida para o começo das discussões. A partir daí, as questões de classe social, lugar do outro, egoísmo e até machismo entram na roda para que todos compartilhem o que pensam e como isso interfere na vida de cada um.  Uma das coisas que chamaram a atenção é como uma situação que acontece no cotidiano e somente quando é exposta por meio do espetáculo é que podemos deixar a ficha cair e só assim nos damos conta do quanto é danoso esse nosso egoísmo, esquecer do outro e pensar só em si.
Outro ponto interessante que foi abordado foi a questão do que é justiça. O que consideramos justiça e até que ponto ela nos contempla. Será mesmo que essa dita justiça age de maneira que possamos nos sentir satisfeitos com seus resultados/punições? O que levou Sara e Antônio a recorrer a César? O que levou Dona Vania a ir até o apartamento do casal? A partir do momento que se percebe o que chamamos de justiça e como buscamos ela é que vai aos poucos surgindo as situações cotidianas, o que leva a perceber: como somos marcados pela divisão das classes sociais; como a cor das pessoas que representam a camada mais criminalizada ainda é a da pele escura; como tudo isso que ainda parece tão clichê e que para alguns já não tão clichê assim,  devido aos movimentos de desconstrução e afins; como tudo isso ainda forma a sociedade que pertencemos e como estamos distantes do fim desses estereótipos.
Dois dias de muitas opiniões e muitas considerações importantes também. Nosso público surdo se fez presente e bastante participativo, divulgando para os colegas e tirando suas dúvidas sobre o que sentiram e viram. A sensação de dever cumprido tomou conta de todos no fim do último dia. Encerramos o projeto sabendo que além de arte conseguimos despertar desejo de questionar e de se questionar sobre a vida, o outro, os afetos e tudo que atravessa nossa rotina. Quase Nada fez muito para o povo aracajuano que saiu do seu mundo e deu-se para ver o do outro, através das persianas, sentindo os silêncios e saindo do teatro com a cabeça fervilhando de boas questões.



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