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O QUE HÁ POR TRÁS DESSE SORRISO?

Posted by Nóis de Teatro On 10:53 No comments




Por Kelly Enne Saldanha

"Eu escrevi um poema para uma mulher que sobe em um ônibus em Nova York. Ela é empregada doméstica. Carrega dois sacos de compras. Se o ônibus para de repente, ela ri. Se o ônibus para lentamente, ela ri. Eu pensei...Se você não conhece os traços negros pode achar que ela está rindo. Mas ela não estava rindo. Ela estava simplesmente esticando os lábios e fazendo um som hahahaha...Eu entendi. É um truque de sobrevivência. Agora deixe-me escrever sobre isso para homenagear esta mulher que nos ajuda a sobreviver.

'Setenta anos neste mundo
E a criança para quem trabalho me chama de menina.
Eu digo: Sim, senhora,(hahaha)... por causa do trabalho.
Sou orgulhosa demais para ceder,
E pobre demais para resistir.
Então dou risada
Até a barriga doer
Quando penso em mim mesma.
Meu povo me faz rolar de tanto rir.
Ri tanto que quase morri.
As histórias que contam parecem mentiras.
Eles cultivam as frutas,
Mas comem as cascas.
Eu rio... Até começar a chorar,
Quando penso em mim mesma.'"

Maya Angelou

Este primeiro mês das "Despejadas" junto ao Porto Iracema das Artes foi cheio de grandes descobertas, encontros, achados, reflexões e investigações. Começar este relato trazendo as palavras de Maya Angelou traz bem um resumo daquilo que tivemos de experiências em nossos encontros.

O que há por trás de um sorriso? As pessoas dizem aquilo que querem dizer? Elas dizem aquilo que sentem? Como dizemos nosso "socorro"? Quem quer nos ouvir?

O quarto de despejo, livro de Carolina Maria de Jesus que nos serve de base para criação desse processo traz reflexões do dentro e do fora. Ao mesmo tempo que fala da particularidade de dentro do lar, fala também do meio social, externo e público. Nos vemos mais uma vez, Nóis de Teatro, tratando sobre o público e o privado, o dentro e o fora, o pessoal e o coletivo.

Em se tratando de mulher, o que é seu público? O que é seu privado? O que acontece no quarto de despejo de cada uma de nós? O que não falamos? O que queremos dizer? Onde escondemos nosso pedido de socorro? Alguém quer nos ouvir?

Quando Maya Angelou declama seu poema falando de sorriso, ela cai em choro. Lágrimas cortantes, dilacerantes. Lágrimas cheias de dor. Lágrimas cheias de sorriso. Quantas vezes nos calamos? Quantas vezes não fomos caladas? Dentro e fora de casa. Dentro e fora. Privado e público. O que nos cala? O que deixamos de dizer?

Imbuídas por esse silêncio, por aquilo que não é dito, aquilo que não podemos dizer, uma cena foi construída. Na verdade inúmeras cenas já foram experimentadas, mas essa em especial talvez relate e resuma melhor nossas andanças nesse primeiro mês de projeto no Porto Iracema.

Nos fundos da nossa sede, local dos nossos encontros, temos nosso escritório que é separado da cozinha por uma porta e uma janela de madeiras. Parece a entrada de uma casinha comum. Uma das cenas apresentadas foi nesse espaço. Descrição da cena: Porta e janela fechada. Silêncio. A janela se abre e dentro está uma mulher, parada olhando para o público fora da sala. Pela janela o público vê toda a cena. A mulher que está lá dentro está em silêncio, tentando esboçar um sorriso. Além da tentativa de sorriso, há um texto retirado do livro da Carolina: "Eu sou muito alegre. Todas manhãs eu canto. Sou como as aves que cantam ao amanhecer. De manhã eu estou sempre alegre. A primeira coisa que faço é abrir a janela e contemplar o espaço." Este texto é dito de forma sisuda, de olhos lacrimejantes. Da boca saem essas palavras mas os olhos pedem socorro. Ao terminar o texto, por trás da janela aparece uma pessoa que a faz calar. Esta pessoa olha para a plateia, olha para o público e fecha bruscamente a janela. Depois de alguns segundo, a janela volta a ser aberta. Desta vez a mulher está mais afastada. Porém o olhar é ainda o mesmo. Olhar de apavoro, medo, engasgo, mas, dessa vez, nenhuma palavra sai de sua boca. O que ela quer dizer? Depois de algum tempo, a figura reaparece atrás da janela e repete os mesmos olhares e bruscamente fecha a janela. Depois de mais alguns segundos, a janela volta a ser aberta. Desta vez não há ninguém. Somente o vazio da sala cheia de objetos. Depois de mais algum tempo, a figura reaparece. Repete os mesmos olhares e dessa vez a janela é fechada lentamente.

Toque o sino se você já presenciou uma situação de violência com alguma mulher. Quantas vezes esse sino será tocado? Quantas praças públicas têm nome de mulher? Quantas mulheres dão nomes às ruas? Quantas estão em altos cargos fudendo nossa vida? Quantas vezes seguramos a mão de um agressor na rua, na família, na vizinhança? Quantas vezes nos calamos diante das agressões que sofremos? Quantas vezes dizemos que não adianta se meter na vida do casal? Quantas vezes a particularidade da vida do casal foi motivo do seu silêncio? Até onde podemos interferir nessa particularidade? Até onde devemos ir?

O silêncio de consentimento. O silêncio de socorro. O silêncio da falta de esperança. O silêncio. Como ele dói. Quantas dores silenciadas. Quantas mulheres caladas. Quantas dores, nós, mulheres da periferia deixamos escondidas. Não podemos parar. Não podemos falhar. Porque além de sermos marginalizadas, somos faveladas.


Para que não precisemos mais sorrir quando na verdade queremos gritar. Para que não precisemos mais aturar, fingir, engolir e sorrir.

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